Obrigada, Julho
sobre o desafio de descansar sem culpa e outras coisas mais
Passei julho de férias, como todo professor, e obviamente fiz planos como sempre faço.
Ainda estou de férias, faltam cinco dias para voltar à rotina frenética do trabalho, mas minha cabeça já é uma oficina de pensamentos incessantes, e começo a pensar no clichê mais batido do mundo: “foi bom enquanto durou”. Já começo, também, a avaliar minhas escolhas e feitos neste que foi o meu trigésimo julho. Não viajei a Londres, nem sequer ao litoral paulista — preferi ficar inteiramente dedicada à minha casa e às suas arrumações. Adoro organizar minhas gavetas, mas ao mesmo tempo, é inevitável pensar que eu poderia ter feito muito mais dentro de um tempo que foi pensado, justamente, para que fizéssemos menos.
Eu me lembro que eu estava tão exaurida no dia 30 de junho que já me sentia anestesiada pela rotina. De tão cansada, não sinto mais tanta coisa, sabe? Mal parecia que, no dia seguinte, eu não precisaria ligar a minha motoca elétrica e ir em direção ao trabalho. Esse sentimento é natural quando se está submersa numa rotina exigente, mas, assim que a lembrança de que as férias chegavam faiscava, um alívio tomava conta de mim e eu pensava: nessas férias vou assistir a pelo menos um filme por dia, ir a uma peça de teatro por semana, ler alguns livros (sim, no plural), colocar os estudos em dia, me exercitar dia sim, dia não... E, bem, ledo engano. Fracassei em metade. Só para variar um pouco.
Mas tiveram muitas coisas que deram certo, porque nem tudo nessa vida é para dar errado, e eu finalmente comecei a me exercitar naquela rede de bicicletas que tomou uma proporção enorme no Brasil nos últimos tempos. Estou tentando ir todos os dias há pelo menos três semanas e já começo a sentir diferença na minha saúde e disposição — dá até para sentir meus quadríceps querendo despontar para me dizer “oi” todos os dias e, não vou mentir, isso me anima bastante. Nunca fui fã de musculação em academias convencionais, e tenho quase certeza que tenho adorado essa experiência porque andar de bicicleta está entre as memórias que guardo com mais carinho da minha infância. Trabalho os músculos, suo um bocado e ainda me divirto ao som de Macarena.
Assisti a um show internacional do Harry Styles, mesmo depois de ele ter cancelado exatamente o show que seria o meu — e como eu sou feliz por isso ter dado certo. Li o novo livro da Rosa Montero, assisti a Beth Goulart interpretar Clarice no teatro, e assisti a um dos melhores filmes dos últimos tempos no cinema: A Odisseia. Espero que ele leve um ou muitos Oscars no ano que vem. Aprendi a fazer umas comidinhas deliciosas, entrei em dieta pela primeira vez na vida e aprendi que comer regradamente realmente não é nada fácil. A fome de dez mendigos ao final do dia existe, é real e oprime.
Escrevi muito pouco, pensei que pelo menos duas newsletters nasceriam por aqui em julho, mas não posso dizer que não escrevi no geral. Apresentei trabalhos em dois congressos, um no meu primeiro dia de férias e outro ontem, ambos a respeito do meu romance preferido que tenho me debruçado bastante nos últimos tempos por conta do doutorado. Deu tempo de ler Horas Azuis para iniciar o segundo semestre do ano com estilo no primeiro encontro do clube de leitura de que participo, o Sad Girls Book Club da Mariana Casarin Frata, e estou ansiosa pelas trocas que virão.
Sinto o coração confuso, ele em conjunto com a minha mente querendo expandir para mudanças, a vida batendo na porta pedindo por elas — e já não é de hoje. Sinto que alguns aniversários desse sentimento ainda virão. Certas convicções antigas caíram por terra, não penso mais que a sabedoria reside única e exclusivamente nas cabeças mais brancas, pois às vezes pode sim vir de corações ainda ingênuos e com sede apaixonada de mundo. Tenho pensado muito que anjos na Terra existem e, de tão iluminados, nos fazem sentir vontade de nos aproximarmos de Deus, assim como eles.
Penso que se a modalidade esportiva de carregamento de vários pratinhos ao mesmo tempo existisse nas Olimpíadas, eu certamente estaria no pódio, se não em primeiro lugar, pelo menos entre os três ganhadores. E, não, isso não é uma corrida, um show de performance, não acho que faço parte da tal Sociedade do Cansaço proposta por Byung-Chul Han. Eu apenas percebi há um tempo que esse é o meu modus operandi, gostar de desempenhar as coisas que gosto ao mesmo tempo em que foco nas coisas que preciso, eu não posso ignorar as coisas que me fazem ser eu, se não eu travo no resto. E é justamente por isso que travo um desafio diário comigo mesma de aprender a descansar sem sentir culpa. A culpa é uma membrana que fixa facilmente à pele, é áspera, se faz assim para sempre nos lembrarmos dela ao toque sutil em nós mesmos ao buscarmos nos acarinhar.
Espero um segundo semestre tão bom ou melhor que o primeiro: sabedoria, calma, paz para o coração e pessoas gentis por perto. Quero repetir a parte da sabedoria, pois preciso, demais, tomar decisões que não cabem apenas a mim. Sinto falta de não precisar ter o poder de escolher a todo momento. Falta de ser leve. E já que justo a mim coube ser eu, e se aqui vale outro clichê, que eu seja uma casa de sentimentos bons.
Here, there, and everywhere…
L.B.



Eu comecei achando que seria um desabafo, da rotina e do sentimento de exaustão da rotina, e terminei refletindo o quanto a beleza de você ter uma rotina ajuda, pois nós faz ao mesmo tempo valorizar os momentos que não temos, me senti profundamente acolhida do começo ao fim, como se eu mesma estivesse vivenciando cada sensação, desde a nostalgia da odisseia, ao suor da bicicleta e a descoberta da comida saudável, sem palavras pra tamanho talento, que mesmo entre o caos e a paz você consiga tocar todas as pessoas que passam pela sua vida, mais se isso te alegrar de algum modo, eu afirmo com convicção que me tocou profundamente.