Coração analógico
sobre memória, tecnologia e tudo que não cabe numa tela
Tenho 30 anos, e os computadores já existiam quando eu nasci, menos pendrives e o próprio Google. O que havia eram processadores muito básicos comparados aos de hoje, memórias minúsculas e uma interface visual bem mais simples e crua do que qualquer coisa que usamos agora. Os PCs mais pareciam enormes máquinas de lavar, com suas CPUs volumosas, caixinhas de som que captavam as ondas de sinal do celular — antes mesmo de ele tocar já sabíamos que alguém entraria em contato, por conta daquele som alienígena —, e o Windows 95 era a grande casa de tudo isso. Além disso, ter um computador em casa era sinal de riqueza, e não sem razão, já que era um aparelho bastante caro.
Meu primeiro computador foi um presente da minha madrinha. O ano era 2004, e ele tinha aquela cor amarelada característica dos PCs antigos — não por exatamente uma escolha estética. Nunca vou me esquecer do barulho que a CPU fazia ao inicializar: algo entre um avião decolando e um liquidificador com algum problema muito sério, alto o suficiente para que, de madrugada, eu e meu irmão torcêssemos para que não decolasse e nossos pais não acordassem. Várias letrinhas verdes piscavam no monitor, igualzinho aos filmes da NASA, e eu me sentia exatamente tão poderosa quanto, fazendo o máximo que conseguia naquela máquina (assim como toda criança da minha geração): desenhar no Paint e jogar Pinball. A internet simplesmente não funcionava nela, e então minha mãe acabou comprando, depois, uma máquina um pouco melhor para que pudéssemos ao menos acessar a web de vez em quando.
A internet era um lugar que visitávamos antes de se tornar um lugar onde hoje vivemos.
Comecei a vivenciar as redes sociais muito nova, em meados de 2006, com os saudosos Orkut e MSN. A minha internet era conectada via discador iTelefônica (dios mio, estou ficando velha), não pagávamos pelo uso nos dias de semana após meia-noite e, durante os finais de semana, éramos livres para usar dentro dessas 48 horas de acesso. Era uma disputa: eu, meu irmão e minha mãe, todos querendo acessar o mesmo desktop com horários estipulados, já que a rede wi-fi só viria a surgir em dois anos e a conexão não era exatamente facilitada para um uso democrático familiar.
Sempre gostei de fotos, de ser fotografada, mas principalmente de fotografar, e fui uma pré-adolescente que adorava passear por sites de inspiração criativa como o WeHeartIt, o Blogger e o Flogão muito antes da era Pinterest. Criei diversos perfis fakes no Orkut de personagens dos quais gostava muito, e era uma comunidade interessante essa, uma experiência que os adolescentes de hoje talvez não consigam nem imaginar a dinâmica. Ainda me lembro exatamente do meu primeiro endereço de e-mail, no Hotmail, é claro, como grande parte dos millenials nos anos 90 e 2000.
Usei MP3, MP4 e até o famoso MP10 — que, para quem não sabe, eram aparelhos de reprodução de música e mídia de marcas genéricas chinesas que imitavam o visual do iPhone: corpo parecido, detalhes cromados e até caneta touch. Minha primeira câmera digital não foi exatamente uma Cybershot — a febre das meninas na época —, mas uma Samsung a pilha que minha mãe comprou nas Casas Bahia, e me lembro muito bem dela.
As meninas da minha geração adoravam transferir pelo cabo USB suas fotos para o computador e postar suas 12 imagens no Orkut (esse era o limite de postagem nos álbuns do site). Quando finalmente tivemos um computador que nos possibilitou o acesso à internet, ainda que entrecortado, criamos nossas primeiras redes sociais e, a partir daí, nunca mais me desprendi delas.
O Instagram ainda não existia, e as pessoas, ao meu ver, se dispunham a escrever muito mais entre elas, seja dentro dos tópicos das comunidades de que participavam, seja através dos depoimentos ou nos próprios scraps. O Instagram, por sua vez, chegou por volta de 2010 como uma rede social diferenciada e voltada às fotos espontâneas das situações mais corriqueiras do dia a dia: pratos bonitos, unhas da semana, look do dia e fotos dos pets.
Sinto que vivenciamos gerações digitais distintas, e se pararmos para analisar, cada uma delas revela um recorte tão preciso que poderia facilmente se tornar objeto de estudo social.
Passei por todas essas fases: vi memes tomando forma, do Trollface ao atual “six seven”; os pacotes de SMS das operadoras para nos comunicarmos via BlackBerry, Nokia tijolão ou Motorola V3 — os iPhones da época; a chegada do WhatsApp; o nascimento da profissão youtuber; os Stories, e então uma pandemia, que funcionou como portal para muitos outros adventos: as fake news, as lives, as dancinhas do TikTok, os apps de delivery e a atual era da inteligência artificial.
Meus atuais alunos do Ensino Médio nasceram quando eu ainda estava jogando Pinball no PC. É um pouco inacreditável pensar que eles nunca conheceram um mundo sem smartphones — e a internet, para eles, jamais será um lugar “para se visitar”, como um dia foi para mim. Está tão entranhada em suas vidas que parece fazer parte do próprio DNA: algo irreversível e intrínseco, presente desde sempre e para sempre. Eu gostaria que eles pudessem saber como é a sensação de ter um tempo para se dar um tempo, quando a tecnologia ainda nos dava essa chance.
E por falar em adolescentes, fico feliz em dizer que conheço muitos deles que, mesmo nascidos na era do discador iTelefônica, têm desenvolvido uma relação mais cuidadosa com o que consomem e registram: rastreiam o que tiraram de bom dos filmes que assistiram, anotam os insights das últimas leituras, ainda que não postem mais com tanta regularidade nas redes voltadas à exposição sem fim. Esse me parece um dos movimentos mais interessantes da atual geração Z: uma certa aversão à superexposição e uma mudança cultural silenciosa em direção à privacidade.
Será esse um bom sinal? Eu acredito que sim.
Sou fã das inovações tecnológicas e não posso negar que travo uma batalha comigo mesma nesse sentido: ao mesmo tempo em que adoro colecionar cadernos e itens de papelaria, não abro mão do meu iPad, que facilita — e muito — a minha vida nos estudos. Gosto de manter os dois hábitos vivos na minha rotina. Nunca mais precisei imprimir arquivos gigantescos, economizo muitas folhas de papel e ainda consigo fazer minhas próprias anotações dentro de um PDF que estará sempre ali, à minha espera no GoodNotes.
Eu faço listas no Keep e nas notas do celular, rastreio minhas leituras no Skoob e os filmes que assisto no Letterboxd. Eles também estão fazendo isso.
No fundo, todos estamos tentando, à nossa maneira, dar sentido ao que vivemos com tudo o que temos.
Tenho um coração analógico e saudoso que não me deixa imaginar um mundo confinado unicamente a uma tela. Às vezes penso no quão maravilhoso seria se não fôssemos tão dependentes da tecnologia como somos hoje, e escrevo assim mesmo, no plural, pois como disse, também me encaixo ao grupo, ainda que eu tenha tentado me desprender de certos hábitos que, indiretamente ou não, ainda me encaixotam nessa realidade da qual escrevo.
Isso me faz lembrar de uma tirinha do André Dahmer que vi recentemente no Instagram. André é um dos meus desenhistas preferidos dos últimos tempos:
E quem não?
A partir daqui, Freud pode explicar, como sempre, já que mostrou que amor e ódio não são forças isoladas, pelo contrário: podem coexistir em relação ao mesmo objeto. Alguém pode amar profundamente uma pessoa ou uma coisa e, ao mesmo tempo, odiá-la em certas circunstâncias. Essa tensão não é um defeito humano, mas parte da complexidade da vida psíquica.
É exatamente esse o conflito que sinto quando penso na escrita à mão, tanto dos meus alunos quanto a minha própria. Cadernos caprichados com canetas coloridas, datas no cabeçalho, o prazer da organização no papel: tudo isso tem se perdido diante do uso excessivo das telas, e essa é uma das perdas mais visíveis. Praticar a caligrafia, reconhecer a letra dos parentes, amigos e professores são qualidades afetivas que não deveriam ser abandonadas no tempo. Para mim, faz parte de uma das características mais fortes e simbólicas ligadas aos costumes hoje considerados analógicos.
Minha letra cursiva é igual à da minha mãe — sempre observei com carinho cada detalhe da sua escrita quando era criança e estava aprendendo. Queria imitá-la. O mesmo vale para a minha letra de forma, idêntica à do meu pai, cuja caligrafia admirei e reproduzi da mesma maneira.
Posso escrever no meu iPad com o auxílio da Apple Pencil, claro, mas escrever no papel ativa partes muito importantes do cérebro, e por isso, mas não somente por isso, pretendo nunca perder o hábito. Gosto de olhar para trás e rever as lembranças fincadas em mim através do que pude tocar ou desenvolver com as minhas próprias mãos.
Acredito ser possível admirar todas as revoluções tecnológicas que já vivenciamos e enxergá-las como marcadores de quem somos e de onde chegamos. Reconhecer que há muito esforço e história humana por trás dos monitores, para além dos interesses capitalistas, é um vislumbre importante da nossa própria espécie e da nossa condição enquanto indivíduos.
Outro dia, no meio de uma aula, pedi que os alunos anotassem algo no caderno. Uma menina olhou para a folha em branco por alguns segundos, como se estivesse diante de uma tarefa estranha, e então escreveu, bem devagar e a contra gosto, com uma letra que ainda estava se descobrindo. Fiquei olhando sem que ela percebesse. Pensei na minha mãe. Pensei em mim aos dez anos, tentando copiar cada curva da caligrafia dela como quem decalca um mapa do tesouro.
Não sei se essa menina vai continuar escrevendo à mão. Não sei se vai guardar cadernos, se vai um dia reconhecer a letra de alguém que ama e sentir aquele aperto específico no peito. Mas sei que, naquele momento, algo aconteceu fora de uma tela, e isso ainda significa alguma coisa.
A memória digital é estranha, está em todo lugar e em lugar nenhum. As fotos que tirei com aquela Samsung a pilha não existem mais, não as guardei em lugar nenhum. As fotos que tiro hoje existem numa nuvem que não consigo tocar. De um jeito ou de outro, tudo some. A diferença é que o que guardei com as mãos, as fotos reveladas, os cadernos rabiscados, as cartas dobradas dentro de livros, tudo isso ainda posso pegar e ainda é meu de um modo que nenhuma senha recupera.
Acho que é isso que sinto falta de transmitir aos meus alunos: não a tecnologia em si, nem a falta dela, mas a consciência de que cada era deixa marcas que só quem viveu carrega. Eles têm as deles, que eu não vou entender completamente, assim como eles jamais vão entender o que é esperar o final de semana para usar a internet, ou torcer para que a CPU não acordasse a casa inteira.
Somos marcadores um do outro. Vivemos em camadas.
Não estou tentando voltar no tempo através de um buraco de minhoca, nem convencer ninguém de que antigamente as coisas eram melhores. Estou só tentando não deixar que a velocidade de tudo apague o que ainda vale a pena sentir devagar. A tecnologia vai continuar avançando — e eu junto com ela, mas enquanto puder, vou continuar anotando à mão, reconhecendo letras, e pedindo para os meus alunos saírem do celular ou do computador de vez em quando,
Não por nostalgia, mas pela memória, e porque espero que eles ainda possam sentir a sensação de escrever textos como esse: com saudades.
Tenho pensado muito sobre minha presença nas redes sociais. Diferentemente das outras vezes em que simplesmente desativei tudo por um tempo e voltei sem pensar muito, desta vez reduzi o uso da rede que mais me consumia e estou substituindo esse tempo por atividades que considero mais proveitosas: a escrita aqui no Substack — que, ainda que para um público pequeno, me incentiva a manter a mente organizada, e quanto mais escrevo, mais sinto que preciso continuar —, as leituras pessoais, a tese e, claro, os compromissos de trabalho, que são infinitos.
Preciso começar a releitura de A Paixão Segundo G.H., da Clarice, porque recentemente mudei meu objetivo de pesquisa no doutorado: escolhi comparar a obra com O Morro dos Ventos Uivantes. A ideia é analisar o enclausuramento feminino através da simbologia do quarto e do sótão — elemento que já não é novo para mim dentro da literatura inglesa, mas que aparece nos dois romances por razões completamente distintas e ainda assim passíveis de uma leitura comparada em termos de alteridade: entre o moor e o quarto.
Faltam 13 dias letivos para acabar o primeiro semestre. Hoje começa a Copa do Mundo e sábado tem jogo do Brasil. Não estou nem um pouco no espírito de torcida este ano. Vocês também têm a sensação de que as outras edições foram mais enérgicas? Não sei. Vamos ver como vai ser.
Ontem fui à livraria e comprei três livros que me chamaram a atenção pelos títulos:
Dura para sempre e depois acaba — Anne de Marcken
Cor de defunto — Cami di Malta
Um lugar ensolarado para gente sombria — Mariana Enriquez
O da Cami di Malta já estava na minha lista e os outros dois me ganharam ali na hora. Gosto de títulos diferentes, poderosos, com um quê de uncanny, aqueles que já perturbam antes mesmo de você abrir o livro. Estou contando os dias para as férias para poder me dedicar somente à minha lista de leituras e filmes. Estou sonhando com esse momento.
Bom, por hoje é só.
Se você chegou até aqui, já me faz muito feliz. Mas se quiser me deixar um comentário, uma mensagem, contar o que achou, isso significa mais do que você imagina. É o que me dá energia pra continuar.
Até a próxima!








É bom saber que os jovens são mais conscientes que gerações passadas, cria uma centelha de esperança para o futuro.
achei o texto muito reconfortante, eu que com 16 anos, não nasci imediatamente com telas mas ja tive acesso a elas desde pequeno me identifiquei com algumas coisas, e que infelizmente desde que comecei a usar ativamente o instagram nunca consegui realmente ter um tempo de pausa e respirar, cheguei ao ponto (que é o que estou agora) de desativar ele pela minha saúde mental, pelo tempo que perdia e pela exposição que tinha se tornado um hábito.
fico feliz de saber que cada vez mais as pessoas estão tendo consciência e acesso aos maleficios que as redes sociais nos trazem... e que para mim, se puder, não volto nunca mais, não do jeito que está.